7/30/2015

ANÁLISE THAT LAST-GEN GAMER – Batman: Arkham City

Como os mais atentos sabem, o mundo gaming é um ecosistema exigente em diversos aspetos. Há-que tentar corresponder às expectativas dos fãs e consumidores e um dos géneros mais vulneráveis a más receções é o dos jogos criados a partir de licenças de outros meios – nomeadamente adaptações de filmes, séries ou livros. Em 2009, o pessoal do estúdio Rocksteady demonstrou de forma quase perfeita o que um jogo adaptado de outro universo podia atingir, com Batman: Arkham Asylum. Ainda que algo linear, esse título introduziu diversas mecânicas de jogabilidade muito bem conseguidas, bons gráficos e fez as delícias dos fãs do lore do Dark Knight.

Este ano foi a minha vez de jogar o seu sucessor, Batman: Arkham City e a experiência resume-se em poucas palavras: foi dos melhores jogos que já estiveram na minha consola. Porquê? Descubram em baixo.


Gráficos


No departamento gráfico este jogo não desaponta. Desde as primeiras cenas saltam à vista imensos detalhes no cenário, tanto em espaços abertos como interiores. Desde coisas escritas a pequenas imagens, quadros, segredos, enfim, tudo o que vemos (e não vemos) está lá por uma razão.


            Por outro lado, a cidade de Arkham possui uma sensação de grandeza e perigo sempre iminente. Contribui para isto o facto de a história inteira se passar na mesma noite e com os mesmos efeitos climatéricos (neve e chuva), o que também cria o contra-argumento de não se sentirem diferenças ambientais realistas ao longo do tempo. Contudo, nem tudo na BD é necessariamente realista e eu interpreto tais pormenores como mais inspiração no material original do que desleixo. Se algo de negativo se pode apontar à apresentação da cidade é, por vezes, parecer pouco povoada. Contudo, tendo em conta que esta é uma prisão em grande escala e estando dividida por territórios pertencentes a diferentes gangues, subentende-se que seja essa a razão para algumas ruas quase desertas.

«(...)a cidade de Arkham possui uma sensação de grandeza e perigo sempre iminente»

            A plenitude de easter eggs, ou seja, segredos ligados a diversas histórias e elementos do universo Batman aumentam a satisfação de explorar todos os cantos do mapa e motiva o jogador a reparar no cenário, com toda a sua verticalidade. Aqui aprecia-se a consideração da Rocksteady ao criar uma espécie de catálogo com a história das dezenas de personagens que de alguma maneira estão presentes ou são mencionadas, apelando igualmente a conhecedores do universo e a recém-chegados.


              A caracterização das personagens está também muito bem feita, sendo-nos apresentado um Batman, Catwoman e companhia repletos de detalhe e cujas animações imensamente fluidas lhes conferem uma “vida” fora do normal. Aliando a estes fatores um toque final com algo muito típico da BD no “feel” do mundo de jogo, cria-se um ambiente extremamente imersivo e dinâmico. Apesar de o jogo ser bastante extenso e complexo, posso dizer que vi poucos glitches e nunca tive nenhum crash total, apenas alguns soluços na frame rate em alturas de loading e também algum pop-in de texturas de vez em quando. Se algum problema tive neste campo, foram as skins limitadas dos inimigos. Isto é explicado pelas diferentes fações que existem na história e respetivos trajes mas, ainda assim, acho que poderiam ter apostado em mais variedade nos detalhes destes NPCs.


Som


Continuando na linha de ambiente sombrio e do lado mais obscuro do Dark Knight, a banda sonora em Arkham City mantém o som orquestral e possante que já exisita no primeiro título, tornando-se mais relevante agora que o formato open-world permite a mudança de tom consoante as situações com que nos deparamos. A composição de Nick Arundel e da London Philharmonic Orchestra revela-se sublime e perfeitamente adequada ao tema.


            O voice acting é desempenhado de forma exemplar ao longo das dezenas de personagens, mantendo-se o Batman de Kevin Conroy (igualmente a voz do Batman na série animada) e o brilhante Joker de Mark Hamill (que também desempenha a voz do Joker na série animada) e introduzindo-se novas performances nos papéis de vilões como Two-Face e Penguin. Esta última personagem é provavelmente a que carece de uma melhor interpretação, sendo-nos apresentada com um sotaque tipicamente australiano, o que não será muito lógico quando aplicado a um indivíduo britânico. Essa falha é especialmente notória uma vez que Penguin recebe bastante tempo de antena nesta história mas não chega para quebrar a imersão.

«A composição de Nick Arundel e da London Philharmonic Orchestra revela-se sublime e perfeitamente adequada ao tema»

            As multidões de inimigos com que cruzamos caminho ao longo do jogo também ganham vida própria ao serem capazes de manter diálogos espontâneos, muitas vezes comentando episódios que decorreram das ações do jogador na história, outras vezes relacionando eventos deste jogo com acontecimentos do anterior e ainda por outras fazendo comentários isolados que parecem quase sempre bem aplicados. Contudo, não se pode dizer que haja uma variedade imensa dentro destas falas, nem tampouco nas vozes destes criminosos.


            Por outro lado, o facto de haver uma evolução no diálogo destes inimigos em situações de confronto, como, por exemplo, alertarem os restantes membros quando um deles é derrotado na mesma área ou perderem a calma quando começam a ver os seus números a reduzir drasticamente sem saberem como, aumenta consideravelmente a satisfação de conseguir dominar tais encontros da forma mais intimidante possível. O objetivo será sempre agir como o Batman agiria.

            Existem dezenas de documentos de áudio para desbloquear que nos dão a ouvir entrevistas com todos estes vilões no papel de pacientes de Hugo Strange que nos dão mais informação sobre as suas vidas, histórias e razões para se encontrarem em Arkham City – todas elas com diálogos muito bem concretizados e credíveis, agarrando o interesse do ouvinte e motivando-nos para descobrir todas estas conversas.


Jogabilidade


A melhor parte deste jogo é, na minha opinião, a sua jogabilidade. O sistema de combate aplicado já em Arkham Asylum, denominado Freeflow, volta aqui em força e melhorado. Ao invés do que era possível no primeiro título, pode-se agora contra-atacar vários inimigos em simultâneo e o movimento parece mais afinado, responsivo e geralmente mais divertido.


            Os velhos gadgets regressaram e trouxeram consigo novidades que o jogador vai adquirindo à medida que evolui na campanha, tais como uma granada que congela inimigos. Contudo, a melhor adição e uma das mais úteis foi a capacidade de, para além de planar, conseguir-se também “mergulhar” no ar ao encolher a capa e voltar a abri-la para ganhar altitude. Desta maneira consegue-se cobrir muito terreno sem nunca tocar no chão e aprender a dominar esta forma de movimento é extremamente gratificante e um dos fatores que mais contribuem para o sentimento de “ser-se” o Batman.

«(...)o movimento parece mais afinado, responsivo e geralmente mais divertido»

            A história principal começa com Bruce Wayne a ser levado para a cidade-prisão de Arkham, após os eventos finais do primeiro jogo. A partir daí é-nos dada a conhecer toda a cidade e a premissa de que os seus residentes estão sujeitos ao domínio de Hugo Strange, um cientista com métodos maléficos que está a preparar algo chamado “Protocol 10”. Assim, a nossa missão enquanto Batman torna-se descobrir em que é que consiste esse plano e travá-lo.


            Ao longo desse percurso confrontamos inúmeros vilões como Two-Face, Penguin, Poison Ivy e o incontornável duo do Joker e Harley Quinn. Todas estas personagens proporcionam encontros diferentes e raramente repetitivos, ainda que alguns tenham tendência a quebrar o ritmo geralmente rápido do jogo.

            Quanto às missões secundárias, foram integradas no mundo de jogo de maneira inteligente e sem nunca ter que desviar a atenção do jogador de forma excessiva. Por exemplo, as missões opcionais do Zsaasz tomam a forma de telefones públicos a tocar pelo mapa, que têm que ser atendidos a tempo para salvar as vítimas do assassino e todos os 450 Riddler Secrets estão espalhados por Arkham inteira, prontos a ser descobertos e por vezes levando-nos a pensar bastante até alcançar as respetivas soluções.

«[as missões secundárias] foram integradas no mundo de jogo de maneira inteligente»

            Desta forma, as missões secundárias proporcionam bons momentos de jogabilidade que estendem também a longevidade do jogo. No entanto, devido à natureza urgente da história principal, ocupar muito tempo com estas pareceu-me algo despropositado, sendo que eu preferi completá-las depois de terminar as missões principais.


            Como se não houvesse conteúdo suficiente entre as missões principais e secundárias, existem ainda os chamados Riddler Challenges, que consistem em dezenas de desafios tanto de combate como de stealth que motivarão os jogadores mais aplicados a tentar alcançar as pontuações propostas, aperfeiçoando a sua técnica e destreza ao máximo. Estes modos proporcionam mais umas boas horas de jogo a quem desejar completá-los.


Veredito



Batman: Arkham City representa uma evolução da fórmula aplicada em Batman: Arkham Asylum em todos os aspetos. Gráficos superiores, jogabilidade mais flexível e dinâmica, novos “brinquedos” com que explorar a cidade e derrotar inimigos, uma banda sonora, voice acting e efeitos ambientais trabalhados ao pormenor, assim como uma caracterização das personagens extremamente bem conseguida conferem ao mundo de Arkham City uma “vida” muito palpável. Ainda que a história principal não seja tão interessante como a de Arkham Asylum, o vasto leque de personagens presente, as múltiplas e cativantes missões secundárias e ainda as dezenas de mapas de desafio tanto de combate como de confrontos de stealth garantem horas e horas de diversão que farão as delícias de qualquer fã de videojogos de ação e do universo Batman. Aconselho vivamente a compra, especialmente tendo em conta que hoje em dia se pode comprar o jogo a preços bastante reduzidos.


That Last-Gen Gamer

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