Como os mais atentos
sabem, o mundo gaming é um ecosistema
exigente em diversos aspetos. Há-que tentar corresponder às expectativas dos
fãs e consumidores e um dos géneros mais vulneráveis a más receções é o dos
jogos criados a partir de licenças de outros meios – nomeadamente adaptações de
filmes, séries ou livros. Em 2009, o pessoal do estúdio Rocksteady demonstrou
de forma quase perfeita o que um jogo adaptado de outro universo podia atingir,
com Batman: Arkham Asylum. Ainda que
algo linear, esse título introduziu diversas mecânicas de jogabilidade muito
bem conseguidas, bons gráficos e fez as delícias dos fãs do lore do Dark Knight.
Este ano foi a minha vez de jogar o seu sucessor, Batman: Arkham City e a experiência resume-se em poucas palavras: foi
dos melhores jogos que já estiveram na minha consola. Porquê? Descubram em
baixo.
Gráficos
No departamento gráfico este jogo não desaponta. Desde as
primeiras cenas saltam à vista imensos detalhes no cenário, tanto em espaços
abertos como interiores. Desde coisas escritas a pequenas imagens, quadros, segredos,
enfim, tudo o que vemos (e não vemos) está lá por uma razão.
Por
outro lado, a cidade de Arkham possui uma sensação de grandeza e perigo sempre
iminente. Contribui para isto o facto de a história inteira se passar na mesma
noite e com os mesmos efeitos climatéricos (neve e chuva), o que também cria o
contra-argumento de não se sentirem diferenças ambientais realistas ao longo do
tempo. Contudo, nem tudo na BD é necessariamente realista e eu interpreto tais
pormenores como mais inspiração no material
original do que desleixo. Se algo de negativo se pode apontar à
apresentação da cidade é, por vezes, parecer pouco povoada. Contudo, tendo em
conta que esta é uma prisão em grande escala e estando dividida por territórios
pertencentes a diferentes gangues, subentende-se que seja essa a razão para
algumas ruas quase desertas.
«(...)a cidade de Arkham possui uma sensação de grandeza e perigo sempre iminente»
A
plenitude de easter eggs, ou seja,
segredos ligados a diversas histórias e elementos do universo Batman aumentam a
satisfação de explorar todos os cantos do mapa e motiva o jogador a reparar no
cenário, com toda a sua verticalidade. Aqui aprecia-se a consideração da
Rocksteady ao criar uma espécie de catálogo com a história das dezenas de
personagens que de alguma maneira estão presentes ou são mencionadas, apelando
igualmente a conhecedores do universo e a recém-chegados.
A caracterização
das personagens está também muito bem feita, sendo-nos apresentado um Batman,
Catwoman e companhia repletos de detalhe e cujas animações imensamente fluidas
lhes conferem uma “vida” fora do normal. Aliando a estes fatores um toque final
com algo muito típico da BD no “feel” do mundo de jogo, cria-se um ambiente
extremamente imersivo e dinâmico. Apesar de o jogo ser bastante extenso e
complexo, posso dizer que vi poucos glitches
e nunca tive nenhum crash total,
apenas alguns soluços na frame rate em alturas de loading e também algum pop-in
de texturas de vez em quando. Se algum problema tive neste campo, foram as
skins limitadas dos inimigos. Isto é explicado pelas diferentes fações que
existem na história e respetivos trajes mas, ainda assim, acho que poderiam ter
apostado em mais variedade nos detalhes destes NPCs.
Som
Continuando
na linha de ambiente sombrio e do lado mais obscuro do Dark Knight, a banda
sonora em Arkham City mantém o som
orquestral e possante que já exisita no primeiro título, tornando-se mais
relevante agora que o formato open-world permite
a mudança de tom consoante as situações com que nos deparamos. A composição de
Nick Arundel e da London Philharmonic Orchestra revela-se sublime e perfeitamente adequada ao tema.
O voice
acting é desempenhado de forma exemplar ao longo das dezenas de personagens, mantendo-se
o Batman de Kevin Conroy (igualmente a voz do Batman na série animada) e o brilhante
Joker de Mark Hamill (que também desempenha a voz do Joker na série animada) e
introduzindo-se novas performances nos papéis de vilões como Two-Face e
Penguin. Esta última personagem é provavelmente a que carece de uma melhor
interpretação, sendo-nos apresentada com um sotaque tipicamente australiano, o
que não será muito lógico quando aplicado a um indivíduo britânico. Essa falha
é especialmente notória uma vez que Penguin recebe bastante tempo de antena
nesta história mas não chega para quebrar a imersão.
«A composição de Nick Arundel e da London Philharmonic Orchestra revela-se sublime e perfeitamente adequada ao tema»
As
multidões de inimigos com que cruzamos caminho ao longo do jogo também ganham
vida própria ao serem capazes de manter diálogos espontâneos, muitas vezes
comentando episódios que decorreram das ações do jogador na história, outras
vezes relacionando eventos deste jogo com acontecimentos do anterior e ainda
por outras fazendo comentários isolados que parecem quase sempre bem aplicados.
Contudo, não se pode dizer que haja uma variedade imensa dentro destas falas,
nem tampouco nas vozes destes criminosos.
Por
outro lado, o facto de haver uma evolução no diálogo destes inimigos em situações
de confronto, como, por exemplo, alertarem os restantes membros quando um deles
é derrotado na mesma área ou perderem a calma quando começam a ver os seus
números a reduzir drasticamente sem saberem como, aumenta consideravelmente a
satisfação de conseguir dominar tais encontros da forma mais intimidante
possível. O objetivo será sempre agir como o Batman agiria.
Existem
dezenas de documentos de áudio para desbloquear que nos dão a ouvir entrevistas
com todos estes vilões no papel de pacientes de Hugo Strange que nos dão mais
informação sobre as suas vidas, histórias e razões para se encontrarem em
Arkham City – todas elas com diálogos muito bem concretizados e credíveis,
agarrando o interesse do ouvinte e motivando-nos para descobrir todas estas
conversas.
Jogabilidade
A melhor parte
deste jogo é, na minha opinião, a sua jogabilidade. O sistema de combate
aplicado já em Arkham Asylum, denominado Freeflow,
volta aqui em força e melhorado. Ao invés do que era possível no primeiro
título, pode-se agora contra-atacar vários inimigos em simultâneo e o movimento
parece mais afinado, responsivo e geralmente mais divertido.
Os
velhos gadgets regressaram e
trouxeram consigo novidades que o jogador vai adquirindo à medida que evolui na
campanha, tais como uma granada que congela inimigos. Contudo, a melhor adição
e uma das mais úteis foi a capacidade de, para além de planar, conseguir-se
também “mergulhar” no ar ao encolher a capa e voltar a abri-la para ganhar
altitude. Desta maneira consegue-se cobrir muito terreno sem nunca tocar no
chão e aprender a dominar esta forma de movimento é extremamente gratificante e
um dos fatores que mais contribuem para o sentimento de “ser-se” o Batman.
«(...)o movimento parece mais afinado, responsivo e geralmente mais divertido»
A
história principal começa com Bruce Wayne a ser levado para a cidade-prisão de
Arkham, após os eventos finais do primeiro jogo. A partir daí é-nos dada a
conhecer toda a cidade e a premissa de que os seus residentes estão sujeitos ao
domínio de Hugo Strange, um
cientista com métodos maléficos que está a preparar algo chamado “Protocol 10”. Assim, a nossa missão
enquanto Batman torna-se descobrir em que é que consiste esse plano e travá-lo.
Ao longo
desse percurso confrontamos inúmeros vilões como Two-Face, Penguin, Poison Ivy
e o incontornável duo do Joker e Harley Quinn. Todas estas personagens
proporcionam encontros diferentes e raramente repetitivos, ainda que alguns
tenham tendência a quebrar o ritmo geralmente rápido do jogo.
Quanto
às missões secundárias, foram integradas no mundo de jogo de maneira
inteligente e sem nunca ter que desviar a atenção do jogador de forma excessiva.
Por exemplo, as missões opcionais do Zsaasz tomam a forma de telefones públicos
a tocar pelo mapa, que têm que ser atendidos a tempo para salvar as vítimas do
assassino e todos os 450 Riddler Secrets estão espalhados por Arkham inteira,
prontos a ser descobertos e por vezes levando-nos a pensar bastante até
alcançar as respetivas soluções.
«[as missões secundárias] foram integradas no mundo de jogo de maneira inteligente»
Desta
forma, as missões secundárias proporcionam bons momentos de jogabilidade que
estendem também a longevidade do jogo. No entanto, devido à natureza urgente da
história principal, ocupar muito tempo com estas pareceu-me algo
despropositado, sendo que eu preferi completá-las depois de terminar as missões
principais.
Como se
não houvesse conteúdo suficiente entre as missões principais e secundárias,
existem ainda os chamados Riddler Challenges, que consistem em dezenas de
desafios tanto de combate como de stealth
que motivarão os jogadores mais aplicados a tentar alcançar as pontuações
propostas, aperfeiçoando a sua técnica e destreza ao máximo. Estes modos
proporcionam mais umas boas horas de jogo a quem desejar completá-los.
Veredito
Batman: Arkham City representa uma evolução da
fórmula aplicada em Batman: Arkham Asylum em todos os aspetos. Gráficos superiores,
jogabilidade mais flexível e dinâmica, novos “brinquedos” com que explorar a
cidade e derrotar inimigos, uma banda sonora, voice acting e efeitos ambientais
trabalhados ao pormenor, assim como uma caracterização das personagens extremamente
bem conseguida conferem ao mundo de Arkham City uma “vida” muito palpável. Ainda
que a história principal não seja tão interessante como a de Arkham
Asylum, o vasto leque de personagens presente, as múltiplas e
cativantes missões secundárias e ainda as dezenas de mapas de desafio tanto de
combate como de confrontos de stealth
garantem horas e horas de diversão que farão as delícias de qualquer fã de
videojogos de ação e do universo Batman. Aconselho vivamente a compra,
especialmente tendo em conta que hoje em dia se pode comprar o jogo a preços
bastante reduzidos.
That Last-Gen Gamer









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