Ainda me lembro de passar horas em frente à PS2 enquanto miúdo a jogar os
Jak and Daxter e a saborear os seus mundos grandes, coloridos e cheios de vida.
Até hoje considero tal saga uma das melhores ofertas que essa consola nos deu,
o que é, em si, prova da qualidade e experiência do estúdio de onde saiu. Aqui
estamos uns bons anos mais tarde e o mesmo estúdio, Naughty Dog, lançou no ano
de 2013 o jogo que viria a ser reconhecido como uma das “jóias da coroa” da
Playstation 3. Esse jogo é intitulado The
Last of Us.
A história começa com uma das introduções mais marcantes e emotivas na
história dos videojogos, assemelhando-se mais a um drama cinemático do que a um
jogo. Sem dar “spoilers” a quem ainda não jogou, só vos posso garantir que vão levar um abanão
valente nas emoções porque este começo, de facto, surpreende. Daí em diante
desenrola-se uma história pós-apocalíptica original e isenta de clichés baseada
numa infeção existente na vida real. De um ponto de vista científico, a parte
mais assustadora desta história é a possibilidade real de um dia se tornar
verdadeira. Se quiserem descobrir mais detalhes sobre a história antes de
participarem nela, uma breve pesquisa na internet dar-vos-á respostas
aprofundadas.
Posto isto, que mais é que torna este jogo tão bom? Vamos ver os detalhes:
GRÁFICOS
Em poucas palavras, The Last of Us é
provavelmente o jogo com melhores gráficos na PS3. O aspeto geral é bastante
realista e aponta para a representação de um mundo credível, o que, por sua
vez, cria um ambiente mais profundo e significativo onde se pode desenvolver
uma boa história. Os efeitos de iluminação estão muito bem feitos e embora nos
possa parecer que, por vezes, o jogo fica demasiado escuro, depressa nos
apercebemos de que simplesmente não se opta por “segurar a mão” do jogador; se
uma situação parece escura é porque na realidade também o seria e precisaríamos
de recorrer à lanterna. Desta maneira contribui-se muito para a imersão no
ambiente que nos rodeia, até porque tem que se decidir se se quer ver melhor ou
não arriscar ser avistado.
«The Last of Us é provavelmente
o jogo com melhores gráficos na PS3»
No decorrer da história encontra-se um vasto leque de paisagens, desde ruas
citadinas desertas mas repletas de detalhe, armazéns e habitações abandonados,
edifícios gigantes e até florestas. Cada um dos locais por que o jogador passa
é distinto e o design de níveis raramente se torna repetitivo. Vê-se vegetação
a retomar o seu território, lixo nas ruas, o ocasional cadáver e ainda objetos
relevantes como documentos, notas e mantimentos. Não faltam locais que
supliquem a que paremos a ação durante um bocado para apreciar a beleza deste
mundo decadente – é pena que só na versão PS4 haja um modo Photo.
As animações utilizadas são exemplares e contribuem em grande medida para a
atmosfera altamente cinemática deste título. As cutscenes parecem cenas retiradas de uma produção cinemática, uma
vez que as personagens trazem consigo uma “vida” altamente realista. As suas
expressões faciais foram aperfeiçoadas ao pormenor e isso nota-se tanto em cutscenes como durante a jogabilidade.
O meu único reparo no departamento gráfico em TLOU é uma palete de cores
demasiado saturada em determinadas situações, nomeadamente quando há muita luz
solar. O uso de cores menos puxadas teria criado imagens mais neutras e
realistas mas isto é uma falha pequena num título cujo visual é realmente
fantástico e uma homenagem às capacidades da PS3.
JOGABILIDADE
Mantendo-se na linha do realismo, a jogabilidade em TLOU é sólida, bem
pensada e o jogo nunca nos ajuda excessivamente. Joguei tanto na dificuldade
normal como em Survivor e posso dizer
que a experiência varia bastante consoante a dificuldade que se escolher. De
modo geral este é um jogo exigente e depende de cada um abordá-lo mais
sorrateiramente ou mais diretamente, ainda que a primeira opção seja mais
recompensadora na maior parte do tempo.
Posto isto, recomendo
que pessoas experientes joguem em Hard ou
acima disso, uma vez que a experiência se torna mais realista e desafiante
dessa maneira. Há menos recursos para encontrar, os ataques sofridos causam
mais dano, as armas de combate direto duram muito menos e a inteligência
artificial dos inimigos é mais apurada.
«(...) este é um jogo exigente»
Outra grande diferença é o chamado Focus
Mode (função que permite identificar inimigos que estejam atrás de paredes
ou portas) desaparecer no modo Survivor.
Na minha opinião, esta omissão só acrescenta à tensão e necessidade de jogar de
maneira inteligente, sendo que somos obrigados a entender onde estão
determinados inimigos, ao invés de estes nos serem revelados à distância.
Quanto à mecânica de
jogo, TLOU recebe mais uma boa nota. Apontar armas é adequadamente complicado e
quase sentimos o peso das mesmas, o que torna cada tiro certeiro uma delícia.
Tanto o combate como a utilização de armas e outras características podem ser
melhorados pelo consumo de comprimidos que se podem encontrar espalhados pelos
diferentes “níveis”.
As personagens passam por diferentes níveis de maneiras surpreendentes e
geralmente entusiasmantes, raramente seguindo caminhos normais de umas secções
para as outras; em vez disso, colaboram entre si para passar por cima ou por
baixo de algo, para chegar a algum sítio onde sozinhos não chegariam, etc.
Normalmente isto resulta em favor da ação mas, ainda assim, há certos momentos
em que os inimigos parecem perder a inteligência de todo para que certas
personagens sobrevivam a uma ou outra cutscene.
Os sítios por onde se passa podem roçar a repetição mas fazem sempre um bom
trabalho a introduzir um cenário totalmente novo.
Provavelmente a maior falha que encontrei no jogo é a inteligência
artificial dos nossos acompanhantes, que pode chegar a comprometer a imersão em
determinadas alturas. Quando a adrenalina está ao rubro enquanto tentamos
aproximar um inimigo pelas costas e a Ellie decide correr em campo aberto sem
que este teça qualquer comentário, não se evita um “facepalm” ocasional.
Por último neste campo, os sistemas criados em TLOU para nos equiparmos,
consumir itens e ler ou inspecionar documentos são usados como uma extensão da
ação, significando que não podemos pausar o jogo para fazer qualquer uma destas
ações mas, sim, somos obrigados a sacar da mochila e vasculhar pelo que
precisamos na hora. Isto quer também dizer que é necessário estar-se atento e
considerar onde poderemos estar relativamente seguros e não vulneráveis. O
mesmo pode ser dito para o ato de trocar de armas e usar kits de primeiros
socorros.
De modo geral este título tem jogabilidade viciante, balançada e exigente,
deixando-nos apurar as capacidades de sobrevivência em vez de nos pavimentar o
caminho.
SOM
Por onde começar? Tudo aqui foi pensado, desde os atores de voz de alto
calibre (Troy Baker, Nolan North, entre outros) até aos efeitos ambientais
detalhados e à banda sonora emocional. Troy Baker desempenhou um Joel
excecional, aparentando um homem rude, “crú”, mau, mauzão e amável consoante a
situação. Vemos nesta personagem uma multiplicidade de emoções a fluir sem
qualquer falha.
Por outro lado, Ashley Johnson parece a escolha perfeita para representar a
pequena Ellie. Não há como evitar ficar encantado pela inocência, coragem e
história desta menina de 14 anos nascida num mundo virado do avesso. O tom da
sua voz tem sempre algo de melódico e o guião excelente traz à luz uma das
personagens mais tocantes de que há memória em jogos.
Todas as personagens secundárias são igualmente bem representadas e é
espantoso como a Naughty Dog conseguiu introduzir tantas pessoas diferentes no
mesmo mundo sem que alguma vez parecessem semelhantes umas às outras. Os
inimigos infetados produzem sons arrepiantes e característicos que vão desde
berros desesperados e choro ao “clique” desconcertante dos clickers e ainda ao tom borbulhante dos bloaters.
Os efeitos de som dinâmicos adequam-se muito bem a cada cenário, com
pássaros a cantar, chuva a cair em diferentes materiais, pisos e telhados de
madeira a ranger, tijolos a serem atirados, garrafas a partir, etc. Tudo soa
precisamente ao que se esperaria e o jogador é ainda constantemente alertado
por efeitos de fundo distantes e repentinos que o fazem pensar se deve ficar
preocupado ou não.
produzem sons arrepiantes»
Em cima de tudo isto, a banda sonora deste jogo é um trabalho original de
Gustavo Santaolalla que acerta em todas as notas. É subtil, profunda e sempre
apropriada para transmitir tensão, medo, tranquilidade ou confusão. Valeria a
pena comprar por si só.
O defeito que encontrei no som em TLOU é a falta de variedade nas falas e
vozes dos inimigos. Ainda que inimigos humanos entrem em conversa
frequentemente e com sentido, as suas falas são algo limitadas e ouvem-se
poucas vozes diferentes. Mais uma vez, este é um pequeno reparo mas ainda assim
algo que se nota num título tão longo.
VEREDITO
The Last of Us não é um jogo bom. É um jogo muito, muito bom, o tipo de
jogo que pode justificar a compra de uma PS3. Com gráficos excelentes, trabalho
de vozes exemplar, uma história tocante e profunda e ainda uma banda sonora de
qualidade, este título brilha como uma das – se não “a” – obra de arte da
Playstation 3. É uma homenagem às capacidades da consola e ao que o conto de
histórias pode ser. A Naughty Dog merece toda a motivação que recebe por este
jogo e ainda que algumas falhas na inteligência artificial e outros pequenos
aspetos o impeçam de atingir a perfeição, chega muito perto. Façam um favor a
vocês mesmos e comprem-no. Não se irão arrepender.


















